Era um dia de primavera, um daqueles dias em que a brisa corre suave, daqueles dias em que ficar em casa é impensável (...)
John olhava uma última vez para o espelho, ultimamente a imagem que o mesmo refletia não lhe agradava. Molhou as mãos e passou-as pela cara. Era moreno, o seu cabelo negro como o carvão. Sobressaíam-lhe os olhos de um azul tão sereno que muitas já por lá se haviam perdido..
Tinha resolvido quebrar a rotina e uma vez que fosse deixar-se ir sem rumo nem caminhos definidos. Era um dia unico e exclusivamente para ele e para os seus pensamentos.
Saíu de casa de fones nos ouvidos e deixou-se levar pela harmoniosa melodia de nirvana - the man who sold the world. Pelo caminho ia observando as pessoas que por ele passavam, tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo. Todos eles lutavam contra um dilema diário, contra aquilo a que chamamos de viver.
Nos últimos meses, ou melhor no último ano a sua vida parecia ter passado por um tornado e o seu coração tinha sido o epicentro do mesmo. Tudo começou no dia quatro de abril de 2009, tinha conhecido alie e tudo parecia perfeito. Os primeiros meses passaram tal e qual como a brisa que agora lhe fazia esvoaçar o cabelo, de uma forma tão suave, tão doce. Mas depois tudo havia mudado. Num dia frio de inverno saíu mais cedo do trabalho e resolveu passar pelo café preferido de ambos. Levava com ele dois latte macchiato ao chegar reparou num carro estranho parado em frente á sua tão tradicional casa de vedação branca e janelas azuis. Sacudiu a neve do casaco preto comprido, entrou em casa e pousou os lattes na bancada da cozinha, subiu as escadas, abriu a porta do quarto e ali, mesmo no seu quarto viu alie na cama com outro homem. Alie ainda se desculpou, telefonou-lhe vezes sem conta implorando por uma segunda oportunidade mas ele não podia, não conseguia perdoar (...)
John abanava a cabeça como que para afastar todos aqueles pensamentos, tinha prometido a si mesmo não pensar mais no assunto 'alie', por o menos não naquele dia.
Dirigiu-se para a praia.. sentou-se perto do mar e acendeu um cigarro, ah, como já se havia esquecido dos pequenos prazeres da vida, do quão bom é sentir a brisa do mar e saborear um cigarro. O sol aquecia-lhe os pés descalços. Conseguia adivinhar que um verão caloroso aí vinha e que aquela praia, o seu lugar de escape, se ia encher de gente e aí nada mais lhe restava se não ficar em casa em frente á televisão, a playstation era agora a sua melhor amiga. Pelo canto do olho reparou que não estava sosinho, uma figura feminina aproximava-se trazendo consigo um cão, um labrador retriever castanho claro. O cão brincava com uma bola que a rapariga gentilmente lhe atirava. Á medida que ela se aproximava não conseguia deixar de reparar na sua beleza, na tranquilidade que emanava, na leveza do seu andar. O cão dirigiu-se para ele que o recebeu com um sorriso na cara, depois de umas quantas festas o cão delirava. A rapariga chamava por ele mas não obtia qualquer resposta, foi então ao seu encontro, ao chegar dirigiu um sorriso a john e disse-lhe num tom um pouco envergonhado - peço desculpa, lucky não se sabe comportar. Ele, que não conseguira evitar o esboço de um ligeiro sorriso, disse-lhe que não havia qualquer problema.
- anda daí grandalhão, disse ela e o cão seguiu-lhe.
John ficou a observá-los até desaparecerem no horizonte. Não sabendo bem porquê o rosto daquela mulher acompanhou-lhe durante o resto do dia, até mesmo quando chegou a casa depois de um banho bem tomado, olhando-se uma vez mais no espelho o unico reflexo que conseguia ver era o reflexo daquela mulher.
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